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September 28 Vai caindo, como um ritual diário, religiosamente sempre às duas da tarde. Às vezes se vai em seguida, tropical que é, com suas gotas gordas e pesadas. Outras vezes atravessa a noite e se prolonga por mais um dia, soltando fúria em raios e trovoes, até que se acalma e adormece. Ou se tranforma em um lamento débil que tem por único objetivo molhar meus pés embarcados em chinelos de dedos. Vai caindo pontual, mas às vezes surpreende. Faz que pára. Logo volta com mais força para me encontrar no meio do caminho para o trabalho. Como picardia de criança marota. Mas nao me importo. Desfruto da água que salpica minha cara. Lavo minha pele do calor desta cidade. E, no ar-condicionado do escritório, brinco de inverno. Um café quente entre as maos, os pingos respingando nas janelas e, lá embaixo, o mar estático, feito uma pedra de chumbo.
*Cidade do Panamá - 2005 July 26
Faltou-me encontrar por ali algum típico ancião catalão que passou toda sua vida no pueblo para que me explicasse o porquê da tradição, já que os espanhóis das três gerações mais recentes desconhecem a origem da maioria das festas que puntuam seu calendário. Tudo o que sabem meus amigos é que no dia 23 de julho todas aquelas pessoas que se cruzam por Vegas alternadamente a cada tantos finais de semana finalmente se encontrarão ao mesmo tempo reunidas na praça do pueblo ao redor de um palco onde tocam música ruim embebedando-se com álcool ruim superfaturado enquanto resumem em meio a risadas a vida de uns aos outros durante o tempo em que não se cruzaram por essas mesmas ruas. E que antes disso um dragão esverdeado de dois metros de comprimento desfilará pelo centro vestido por quatro pessoas e cuspindo fogo por todos os poros em fagulhas intermitentes e tão altas que farão todos os convidados de Juan Andrés esconderem-se apressados atrás do muro da sacada de onde sempre vêem a parada. E que o tal dragão é precedido por uma secta de demônios vermelhos também cuspidores de fogo que perseguem uma multidão do tamanho que pode ser uma multidão em um pueblo de dez mil habitantes casuais. Os perseguidos, esses, sempre levam um chapéu de palha ou um lenço vermelho amarrado sobre a cabeça e vão molhados para que as chamas não os massacrem. Mas em certos momentos, ninguém sabe por que, o grupo pára diante dos demônios e se senta amontoado no meio da rua esperando, cabeças baixas, que os diablitos invistam sobre eles seus mastros chispeantes. O desfile todo não dura mais que uma hora, apenas uns cinco minutos frente à casa de Juan Andrés. Mas é o suficiente para motivar a Fiesta Mayor de Vegas, que dura até o sol nascer e que é suficiente para motivar o jantar em casa de Juan Andrés, que dura até a imensa provisão de vinhos esgotar-se com relativa rapidez e é suficiente para motivar o grande grupo de amigos bebedores a uma sucessão arrasadora de olas etílicas e gargalhadas. Ninguém sabe explicar o porquê. Dizem que tem algo que ver com São Jorge. May 04 O líquido pastoso escorreu vermelho por entre meus dedos quando levei a mão ao rosto para limpar o pó da queda. O sangue, enchendo minha palma, pingando na areia, quente como eu nunca havia sentido até então. Nacho baixou em um segundo da árvore em que tentava subir sem sucesso e correu em minha direção com cara de pavor. Jordi me abraçava pedindo perdão. As gargalhadas irromperam incontrolavelmente do fundo de meu peito. A cena era tão ridícula quanto a queda que acabava de sofrer. Mal se equilibrando sobre uma pilha de sacos cheios de lixo, Jordi me havia segurado pela cintura e fez menção de me levantar para que eu alcançasse seu casaco, preso no alto de uma árvore. Na mesma fração de segundo em que seus braços me moviam para sobre sua cabeça, suas pernas de bêbado em fim de noite resbalaram nas pútridas sacolas de Caprabo, Dia e Lidl, atirando-nos, os dois, ao chão. O movimento havia sido tão rápido e a uma hora tão avançada da noite que só me dei conta quando estava com a cara colada nos pedregulhos que cobriam o solo. O autor da peripécia saiu ileso do acidente. Eu, com um rasgo na sobrancelha esquerda e ao lado do olho, que não tardou em se colorir e inchar feito o de um boxeador após combate mal sucedido. Vi minha própria imagem no espelho de uma vitrine. Eu era uma caricatura da desolação total de um ser humano: a roupa luzindo em branco sujeira, os cabelos revirados e um rastro de sangue seco marcando a face, como o louco da rodoviária marroqui. Ainda assim eu ria. Não podia deixar de rir. Que mais poderia fazer? A culpa era toda minha. Fui eu quem deu a idéia a um bêbado que minutos antes não podia com o próprio peso dentro do Contraclub. Sempre o Contraclub. March 28 Enfim o perfume do sol exalado pela água e os lírios florescendo nos canteiros. É tempo de almoços prolongados no parque. Nada de carros, nada de poluição, nada de trânsito ou impaciência. Nada que tenha que ver com São Paulo. Apenas o rebuliço dos pássaros brincando pelas árvores, a tranquilidade solitária em um barco no estanque, o verde ao redor das estátuas e a pobre imitação de Michael Jackson dançando sem música para olhares que não o vêem. Som de tambores enchendo o ar. Frases perdidas em francês. Mundo próprio. Ombros descobertos. Pés descalços na grama. Sorrisos fáceis. Plenitude. Paz de espírito. A felicidade em sua essência mais pura. Uma felicidade que simplesmente é sem precisar de motivos. Felicidade do cheiro da água e do sol. Felicidade de Madri nesses dias em que a cidade se veste de primavera. March 17 Fazia horas já que discutíamos sobre aquela situação um tanto insólita. Não nos negávamos. Ao contrário: adicionávamos fudamentos cada um aos argumentos do outro, levantávamos todas as probabilidades, esgotávamos as possíveis surpresas. Cada vez concordando mais. Ainda assim Bixente estava convicto de que devíamos seguir adiante. “Pela aventura”, ele dizia. Eu, por outro lado, contra minha prórpia natureza, a cada minuto sentia mais medo daquele carro que a qualquer momento encostaria em frente ao hotel e, embora não o dissesse claramente porque a curiosidade me impedia, queria mesmo pegar minha mochila e entrar no primeiro ônibus para fora dali. Quando o conhecemos era noite de réveillon e havia um ambiente estranho em Agadir, cidade mais moderna e balneário mais famoso do Marrocos. Havíamos chegado ali uma hora antes de os ponteiros do relógio mudarem o ano e, quando 2005 irrompeu no céu em mirrados fogos de artifício, ainda buscávamos a forma de atravessar a barreira de casas e prédios para pisar a areia da praia. Vi-o quando decidimos mudar de plano. Estava em frente a uma discoteca chamada People, ao lado de um desses grandes hotéis à beira-mar. Cabelos rastafari, bem vestido, falava com muita gente, parecia realmente popular. E por um momento parou os olhos negros sobre mim. A oportunidade perfeita. Ele sorriu um sorriso de meios dentes que logo se fundiu no espanto de ver minhas mãos levantadas em sua direção, sinalizando para que se aproximasse. Confirmou que era realmente ele o destinatário de meu gesto antes de caminhar os dez passos que nos separavam e parar em frente a mim com cara de interrogação. Rachid, ele disse que se chamava. Sim, ele vinha ali com frequência. Sim, a discoteca era mesmo legal. Sim, a música que tocavam era divertida, por que não entrávamos para ver? Ele nos ofereceu bebidas, pois para ele, que havia trabalhado ali como DJ, as bebidas são sempre por conta da casa. Éramos os únicos no lugar que tinham sobre a mesa pratinhos com amendoins, batatas fritas e azeitonas. Rachid fez as vezes de um verdadeiro anfitrião. Nos pedia licensa para enroscar-se nos braços de turistas britânicas que se despejavam enlouquecidas sobre ele, para apertar a mão de algum boa pinta, para distribuir beijos e ois para os inumeráveis conhecidos que apareciam. E sempre que voltava a nossa mesa acrescentava algum encanto à tal praia cujo nome eu não podia pronunciar, onde ele dizia ter um apartamento. Realmente, precisávamos conhecer. Que tal amanha à noite? No primeiro momento desejei que Bixente aceitara a proposta que eu mesma já havia aceitado. Mas ao avançar da noite, conforme o mesmo convite ia se repetindo em uma insistência estranha, comecei a ponderar sobre a decisão à qual meu amigo, então, já se havia unido. Do final daquela primeira madrugada do ano que começara até a metade daquele primeiro dia minha retiscência foi crescendo lado a lado com o encantamento de Bixente. Parecia-nos estranho que um tipo tão querido, tão rodeado de amigos e de conhecidos fizera tanta questão de que justamente nós dois, a quem acabara de conhecer, fóssemos em uma viagem com ele para nos hospedarmos em sua casa. Parecia-nos estranho que um tipo que dizia ter um apartamento à beira-mar e um carro tivesse metade da boca vazia de dentes. Parecia-nos estranho que um tipo que não tinha trabalho dissesse ter um apartamento à beira-mar e um carro. E, acima de tudo, parecia-nos estranho que esse mesmo tipo nos convidasse a conhecer uma praia à noite. Quem, diabos, vai a uma praia que não conhece durante a noite? Ele podia ser o chefe de alguma gangue especializada em roubar turistas otários em Agadir. Mas se fosse, seria tão conhecido e tão querido? Havia outros turistas ali para ele roubar. Por que escolheria justamente os dois que passaram uma noite inteira com o mesmo copo de cerveja dizendo que não tinham mais dinheiro? Ele disse que a namorada iria junto e achava que Bixente era meu marido. Estaria querendo uma noitada a quatro, uma troca de casais, algo alternativo? Disso também poderíamos escapar facilmente. A insegurança me embrulhava o estômago, me fazia comer meus dedos. Me dava criatividade para, com a ajuda de meu companheiro de viagem, elaborar por Rachid os mais nebulosos planos com turistas irresponsáveis. Mas a curiosidade, ah, maldita curiosidade... “Vamos viajar com um desconhecido. Não se preocupe. Mas se eu não voltar a dar notícias dentro de três dias chame a polícia”. A mensagem enviada para o celular de minha amiga Miryam, que estava em Madri, com o número do telefone de “um cara que se diz chamar Rachid e que conhecemos na discoteca People”, era o que eu podia fazer para encarar essa pequena insensatez acreditando que estava sendo cuidadosa. A vida é feita de riscos, nos convencemos, depois de levantar todos os golpes possíveis vindos do tal estranho e de elaborar dezenas de planos de fuga executáveis. Eram 20h45, meia hora a mais que o combinado e cinco minutos a menos que meu limite para pegar minhas coisas e sair correndo para a estação de ônibus, quando um par de olhos verdes submersos na mais profunda melancolia sairam de traz do volante do Mégane branco. A certeza de que algo assustador aconteceria naquela noite se afogou naquela visão. Franciska era a recém chegada namorada suíça de Rachid e o plano teria que ser mesmo muito bom, muito profissional, se o sorriso e as feições comedidas que ela trazia fossem apenas uma fachada para um crime cruel. Mesmo assim, minha desconfiança só desapareceu por completo quando deitei para dormir na sacada do apartamento de sonhos de Rachid, em uma cama colocada baixo um céu estrelado, embalada por lindas canções do mar. Não tivemos respostas para as questões que nos planteamos naquela longa tarde de espera, até porque jamais fizemos perguntas. Mas concluímos que era Franciska quem pagava pelo carro e apartamento alugados para sua semana de férias no ensolarado Marrocos. E que Rachid era apenas o namorado não muito empolgado que não queria passar muito tempo a sós com a amante super apaixonada. E que jamais teríamos conhecido a segregada praia de Taghazoute – muito, mas muito mais interessante que qualquer coisa na super turística Agadir – se não tivéssemos tido a ousadia de abordar Rachid e de aceitar seu convite. A vida é feita de riscos e para disfrutá-la é preciso encará-los de alguma forma. E o medo do imprevisto seria sinal de envelhecimento, de amadurecimento ou apenas um reflexo da quantidade de absurdos que vemos acontecer pelo mundo? Seria a perda da inocência? E a vontade de aventurar-se pelo desconhecido mesmo consciente da possibilidade de perigo seria imprudência, infantilidade ou coragem? Preciso de mais alguns anos para concluir. March 15 De todos os quitutes que há no Marrocos nada é tão popular entre os marroquinos que uma branca, farta e cremosa espuma sobre o café. Assim como “chá sem espuma não é chá”, segundo a explicação pouco aprofundada de meu colega Rachid, um café sem espuma nao é café. O que em outros lugares do mundo pode ser apenas um complemento às vezes até dispensável, nessa terra africana tem importância suficiente para fazer a reputação de uma cafeteria. “Eles têm a melhor espuma de café do país”, nos dizia quem nos indicava o lugar para justificar sua sugestão. Foi em um desses restaurantes com a melhor espuma de café do Marrocos que finalmente, ao fim da viagem, descobrimos o porquê dessa fixação no corpo de uma barata que se econdeu sob a tão afamada espuma durante todo o tempo em que Bixente e eu nos divertíamos dividindo o tal café a colheradas. Foi um choque. Esta semana, quase dois meses depois desse episódio marcante, a famosa espuma de café marroquina aparece em minha casa, em Madri, na mala de Maren, que veio me visitar desde a Alemanha. Minha amiga chegou acompanhada de uma caneca de café, daquelas grandes, tipo americanas, que me põem um sorriso no rosto nas tardes de inverno, e de um apetrecho engraçado que, mergulhado dentro do leite quente, faz crescer a espuma branca e espessa que me perseguiu por todo o Marrocos. Presentes para mim, ela disse. Agora minhas manhãs são passadas aos goles de café coberto pela espuma mais bonita e cremosa que existe no mundo, flutuando em minha enorme caneca colorida. E sem baratas submersas. É de deixar qualquer marroquino com inveja. February 18 Nao havia nenhum cavalheirismo naquela atitude de Bixente. Eu havia pago sua comida e tudo o que eu queria, enquanto o esperava terminar de jantar, era roubar um pouco do pao que lhe deram e mergulhá-lo no aguado caldo amarelo que enchia seu prato. Ele se desesperava: “Pegue o que quiser, menos o molho. Nao acabe com meu molho. Eu preciso dele!”. Nao é que o líquido tivesse um sabor espetacular. O gosto era o mesmo de um simples caldo de carne. Era mais que isso. Junto com o pao, ele tinha toda uma funçao para meu amigo, que eu, por pura diversao, estava disposta a atrapalhar. No centro do prato, rodeado por uma porçao cada vez menor daquele disputado caldo, o cérebro de cabra ainda estava intacto, luzindo todas as suas sinuosidades brancas cobertas por um generoso punhado de cominho, que Bixente despejou ali imitando os homens que o rodeavam, com a esperança de que disfarcasse o sabor da exótica iguaria aparentemente adorada pela populaçao local. Os turistas disputavam espaço nos bancos das tendas de comida que cobriam a Praça Jemaa el-Fna pela noite, mas ao nosso redor todas as caras eram de marroquinos. Apenas eles se aproximavam das barraquinhas que exibiam cabeças de cabras penduradas. Eles e nós, depois que o sangue basco de Bixente se sentiu desafiado a me provar que ele poderia ser parceiro de Indiana Jones. Afinal, eu tinha encarado os escargots, que nao têm o mesmo requinte ostentado nos refinados restaurantes brasileiros e também sao rejeitados pelos turistas em geral. Os locais, entretanto, faziam fila para esperar por esses pratos. Com um avental já colorido pela comida que preparava, o jovem de bigodes fartos partia um crânio atrás de outro, usando a mesma machadinha e toda sua habilidade para separar qualquer parte comestível que uma cabra pode ter nessa parte do corpo. Os clientes escolhiam entre cérebros, olhos e líinguas expostos, ainda crus, na mesa que servia de vitrine. Havia também umas lascas de carne com muita gordura, extirpadas de todas as reentrâncias daquelas cabeças. Uma enorme panela em constante ebuliçao recebia os órgaos caprinos, que eram cozidos no tal molho que eu e Bixente disputávamos quase a tapas. Pelo dever humano de conhecer tudo o que a vida me oferece, provei um pequeno pedaço daquele cérebro de cabra. Da receita só consegui distinguir o que meus olhos podiam ver e meu nariz sentir: água, gordura animal e cominho. Nada mal. O mesmo gosto do caldo amarelado, mas aprisionado em uma textura lisa e meio que gelatinosa, para a qual nao consigo encontar comparaçao. “Realmente, nada mal. Até o terceiro pedaço!”, garantiu meu amigo, esforçando-se para continuar. “Depois essa consistência estranha começa a parecer asquerosa, sobretudo quando você lembra que se trata de um cérebro”. Pobre Indy. A verdade é que os marroquinos nao encaram dessa forma. Há gente que até compra crânios ainda frescos para cozinhar em casa. Sao apenas mais uma parte do animal, como qualquer outra. E a especialidade nao é restrita às cabras. Nos mercados de rua, pendurados sobre o balcao, por várias vezes me sorriram leitoes, vacas, ovelhas, camelos. Às vezes mostando os dentes, às vezes mordendo a língua. Cabeças, cabeças, cabeças. Duas horas mais tarde, com uma dose extra de molho servida pelo cozinheiro, Bixente concluiu bravamente sua missao. Na noite seguinte, ele disfrutou de uma eterna viagem de ônibus rumo ao deserto acompanhado por um terrível mal-estar que o fez vomitar por alguns quilômetros. Tivemos sérias desconfianças de que foi reflexo daquele jantar extravagante na praça de Marrakech. February 09 Quase completamente despida, afastei o plástico mofado que fazia as vezes de cortina e subi os cinco estreitos degraus de cimento esverdeado. O corredor escuro e esfumaçado parecia a entrada para uma ducha coletiva de alguma prisao maldita e minhas maos nem podiam cobrir meus peitos envergonhados, ocupadas que estavam com os apetrechos para o banho. Fora dos hoteis de luxo, o hammam marroquino tao propagandeado pelas agências de turismo obviamente nao era nenhuma das maravilhas que se divulgava e eu já estava satisfeita em conhecê-lo apenas de vista. Mas por dias era a única opçao de banho quente que havia naquela remota regiao ao Sul do Marrocos. Caminhava pé ante pé sobre as sandálias que espalhavam a água acumulada pelo chao, tentando nao fazer caso aos olhares alheios e observando as minúsculas salas, ainda mais escuras, que se enfileiravam a esquerda. Em uma delas uma mulher esfregava um garoto de uns quatro anos que protestava agitando os bracinhos. Parecia que o torturavam. O vapor formado pela água quente que escorria sem parar de uma torneira qualquer enchia o ambiente e camuflava o frio que sorrateiramente invadia o deserto todas as noites. Aquele corredor entao se abria em uma grande sala azulejada coberta por uma constante corrente de água turva. Jorrando de baldes e canecas e se esvaindo com dificuldade por um ralo entupido. Carregando tufos de cabelos, resquícios de pele morta, massas de henna. E, em meio a essa insipidez árabe, duas mulheres se banhavam, sentadas no chao com apenas uma enorme calcinha velha entre seus corpos e a água suja. Com vergonha de expor minha calcinha – muito mais colorida e muito menor que a delas – e meu corpo – mais miúdo e mais estampado que o delas –, enchi um dos baldes que se empilhavam em um canto e me meti em uma das escuras saletas, decidida a me banhar ali, segregada e em pé, protegida por meu chinelo de dedo. Mas nao tardou um minuto para que eu fosse expulsa de meu esconderijo por uma senhora de um metro e meio. Ela apareceu vestindo apenas um short delicadamente colorido, com os seios nus enrugados pela idade que lhe quitou alguns dentes e a fala docemente incompreensível, decidida a me lavar. Apontou o canto do vasto salao aguado onde eu deveria me prostrar e sumiu no vapor do corredor. Reapareceu curvada por dois enormes baldes que pendiam de suas maos, despejou toda a água de um no espaço destinado a minha bunda e me indicou que sentasse, antes de sumir de novo para buscar mais água. Quando voltou, sorriu um sorriso cândido e, sem dizer uma palavra, pegou um pouco do fedido sabao caseiro da marroquina que se banhava em frente e se pôs a me lavar, como se nos conhecessemos há anos, como se aquela fosse a atitude mais natural que poderia ter comigo. Imergi nesse carinho e abstrai meu nojo do chao. Como uma mae cuidando de sua cria, aquela senhora dos peitos murchos explorou cada cantinho de cada uma das minhas orelhas, me fez deitar no chao imundo para massagear meu corpo cansado e, conforme eu me desenrolava de minha concha para me deixar esfregar, foi descobrindo, espantada, cada uma das minhas tatuagens. Primeiro se assustou ao levantar meus cabelos e deparar-se com os desenhos em minhas costas. Nao pôde conter um quase grito que a fez parar sua funçao por um momento. Armada com uma luva esfoliante que mais parecia lixa de pé, ela dedicou tempo extra a meus pontos estampados, me fazendo graça. Nao se atreveu, entretanto, a tentar limpar a henna que cobria com motivos árabes minhas duas maos. Outras mulheres também pararam para me olhar e logo o susto se transformou em risos, comentários e sorrisos. As marroquinas contemplavam meus desenhos tao encantadas quanto eu ficava diante dos rostos tatuados das bereberes que via pelas estradas. Contemplavam minha roupa, meus modos, meus movimentos. Pela primeira vez no Marrocos me senti, eu, a forasteira, como a verdadeira atraçao turística do lugar. |  |
February 02 Esperavamos pelos gritos histericos que nos indicariam a chegada de nosso onibus quando o vi atravessar a porta da rodoviaria. A roupa meio velha, meio suja, nao tinha nada de especial, mas seu olhar nao tinha nada de normal. Em frente ao ouvido esquerdo uma gaze ainda branca tapava tres centimetros de um ferimento sinistro. Pelos quinze segundos que o homem levou para chegar a meu lado fiquei imaginando o que estaria por baixo daquela gaze e que tipo de coisa poderia haver causado a ferida que lhe deixou um rastro grosso de sangue escorrendo ate o queixo. Imaginei um buraco muito profundo. Imaginei um furo de bala. Um golpe de navalha. Um homem semi-morto. Um perturbado mental. Ele sentou a meu lado e mergulhou os olhos insanos nos escritos que eu tinha em maos. Me falou algo em palavras tao enroladas que nao pude compreender se eram arabe ou frances e se aproximou um pouco. Tentei nao fazer caso. Continuei a escrever, apenas tomando o cuidado de mover minha bolsa que estava a seu lado, como uma barreira entre nos. Fiz isso para que ele nao resolvesse meter as maos ali, mas meu gesto serviu para que ele se aproximasse ainda mais, alternando os olhos absurdamente esbugalhados entre meus papeis e minha cara. Ele balbuciava coisas incompreensiveis e apontava para minhas letras e escancarava os olhos sobre mim e se aproximava ainda mais. E se aproximou ate suas pernas quase tocarem as minhas. Pulei para o lado e, com voz firme, disse que ja bastava daquela curiosidade. Ele encheu os olhos redondos de uma loucura ainda maior, tao grande que nao lhe cabia dentro. E aquele olhar fixo se arregalou ainda mais. Aqueles olhos nao poderiam expressar maior loucura e, ainda assim, maior tristeza. E so por isso eu nao queria ser a desalmada que sairia correndo, que mudaria de banco para evitar a curiosidade daqueles olhos indecifraveis. Persisti ali, tentando ignorar aquele olhar, aquela gaze, aquele sangue, esperando o que ele faria em seguida. Ate que ele se cansou. Levantou os olhos escancarados para a porta no outro lado da rodoviaria e saiu com tal automaticidade que parecia hipnotizado. Voltou um minuto depois, braços algemados as costas, acompanhado por um policial. Entao entendi o porque daquelas salas gradeadas que via, vazias e abandonadas, nas maiores rodoviarias do Marrocos, embaixo de letras que diziam em frances “carcere geral”. Hoje pensei em voce o dia inteiro. O som de um berimbau enchia o parque e vi um cara igual a voce. Na verdade era casal igual a nos. Igual ao que fomos um dia. Igual ao que nunca mais fui com ninguem. E pensei em voce. E pensei em mim. E pensei que eu ja nao seria mais assim com voce. E que voce ja nao é mais assim com ninguém. E que nos ja nao seriamos mais assim juntos. E pensei que as coisas mudam, que as pessoas mudam e que tudo o que eu queria era ser assim com alguem novamente. Como éramos eu e voce dez anos atras. "El tiempo pasa Nos vamos poniendo viejos Yo el amor No lo reflejo como ayer En cada conversación Cada beso cada abrazo Se impone siempre un pedazo De razón
Vamos viviendo Viendo las horas Que van pasando Las viejas discusiones Se van perdiendo Entre las razones Porque años atrás Tomar tú mano Robarte un beso Sin forzar el momento Hacía parte de una verdad
A todo dices que sí A nada digo que no Para poder construir Esta tremenda armonía Que pone viejo los corazones..." ... na voz de Mercedes Sosa.
January 16 Uma saudade enorme de sair na rua de chinelo de dedo e camiseta - entre outros vários motivos, é claro - me fez fugir para o Marrocos durante os 20 dias que tive de férias. Nao posso dizer que lá fazia calor, mas nem o frio das noites frias do deserto era tao frio quanto o frio que faz no inverno de Madri. Meu parceiro dessa vez foi o Bixente, meu amigo de Paris, um basco-francês um pouco louco, sempre de bom humor, e com espírito, gostos e interesses muito parecidos com os meus. Ele me encontrou em Fes dois dias depois de minha chegada e percorreu comigo 13 das 15 cidades marroquis que conheci. Estivemos por medinas, vilas abandonadas, oásis e praias. Nos misturamos com os locais, provamos diversas iguarias improváveis e cruzamos quase 200 km de deserto pegando carona com mulas, caminhoes e 4x4 (para fazer contato com a gente da regiao e sua realidade, por um pouco mais de aventura e, afinal, porque nos gusta la mala vida!). Nossa viagem está contada nas fotos e legendas que postei aqui. Infelizmente as imagens mais lindas só puderam ser registradas nas nossas memórias: o padrao do deserto quebrado pelo colorido dos véus de mulçumanas que nao se deixavam fotografar a imundície vaporizada dos hammams a música indiana cantada por Driss no restaurante de Fes a música bereber enchendo os ônibus que cruzavam o deserto o cheiro mutante das ruelas das medinas o sabor das tagines e do chá com menta o sabor de Mercedes Soza em um fone de ouvido compartilhado nas noites frias dos hotéis os camelos passeando livremente pelo deserto a prática super difundida do triatlon nacional - tirar catota do nariz, escarrar na rua e arrotar nos ônibus as conversas reveladoras e intrigantes com Rachid o sol se pondo no horizonte de um leito seco de rio visto desde os tamareiros de um oásis a beleza do mar visto do alto das muralhas de Essaouria ao sabor de um chocolate a barata encontrada sob resquícios de creme no último gole de café Nao era pra ser um blog, porque nao gosto de blogs, mas se é assim que este espaço se apresenta, que assim seja. Para mim é simplesmente um meio de compartilhar minha vida em Madri com meus amigos distantes, um espaço para fotos legendadas. Seja bem vindo e fique a vontade. January 13
Han venido
invaden la sangre
huelen a plumas
a carencia
a llanto
Pero tu alimentas al miedo
y a la soledad
como a dos animales pequeños
perdidos en el desierto
Han venido
a incendiar la edad del sueño
un adiós es tu vida
pero tu te abrazas
como la serpiente loca de movimiento
que sólo se halla a si misma
porque no hay nadie
Tu lloras debajo de tu llanto
tu abres el cofre de tus deseos
y eres más rica que la noche
pero hace tanta soledad que las palabras se suicidan
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