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February 02 carcere geralEsperavamos pelos gritos histericos que nos indicariam a chegada de nosso onibus quando o vi atravessar a porta da rodoviaria. A roupa meio velha, meio suja, nao tinha nada de especial, mas seu olhar nao tinha nada de normal. Em frente ao ouvido esquerdo uma gaze ainda branca tapava tres centimetros de um ferimento sinistro. Pelos quinze segundos que o homem levou para chegar a meu lado fiquei imaginando o que estaria por baixo daquela gaze e que tipo de coisa poderia haver causado a ferida que lhe deixou um rastro grosso de sangue escorrendo ate o queixo. Imaginei um buraco muito profundo. Imaginei um furo de bala. Um golpe de navalha. Um homem semi-morto. Um perturbado mental. Ele sentou a meu lado e mergulhou os olhos insanos nos escritos que eu tinha em maos. Me falou algo em palavras tao enroladas que nao pude compreender se eram arabe ou frances e se aproximou um pouco. Tentei nao fazer caso. Continuei a escrever, apenas tomando o cuidado de mover minha bolsa que estava a seu lado, como uma barreira entre nos. Fiz isso para que ele nao resolvesse meter as maos ali, mas meu gesto serviu para que ele se aproximasse ainda mais, alternando os olhos absurdamente esbugalhados entre meus papeis e minha cara. Ele balbuciava coisas incompreensiveis e apontava para minhas letras e escancarava os olhos sobre mim e se aproximava ainda mais. E se aproximou ate suas pernas quase tocarem as minhas. Pulei para o lado e, com voz firme, disse que ja bastava daquela curiosidade. Ele encheu os olhos redondos de uma loucura ainda maior, tao grande que nao lhe cabia dentro. E aquele olhar fixo se arregalou ainda mais. Aqueles olhos nao poderiam expressar maior loucura e, ainda assim, maior tristeza. E so por isso eu nao queria ser a desalmada que sairia correndo, que mudaria de banco para evitar a curiosidade daqueles olhos indecifraveis. Persisti ali, tentando ignorar aquele olhar, aquela gaze, aquele sangue, esperando o que ele faria em seguida. Ate que ele se cansou. Levantou os olhos escancarados para a porta no outro lado da rodoviaria e saiu com tal automaticidade que parecia hipnotizado. Voltou um minuto depois, braços algemados as costas, acompanhado por um policial. Entao entendi o porque daquelas salas gradeadas que via, vazias e abandonadas, nas maiores rodoviarias do Marrocos, embaixo de letras que diziam em frances “carcere geral”. Comments (1)
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