February 09
Por baixo dos panos
Quase completamente despida, afastei o plástico mofado que fazia as vezes de cortina e subi os cinco estreitos degraus de cimento esverdeado. O corredor escuro e esfumaçado parecia a entrada para uma ducha coletiva de alguma prisao maldita e minhas maos nem podiam cobrir meus peitos envergonhados, ocupadas que estavam com os apetrechos para o banho.
Fora dos hoteis de luxo, o hammam marroquino tao propagandeado pelas agências de turismo obviamente nao era nenhuma das maravilhas que se divulgava e eu já estava satisfeita em conhecê-lo apenas de vista. Mas por dias era a única opçao de banho quente que havia naquela remota regiao ao Sul do Marrocos.
Caminhava pé ante pé sobre as sandálias que espalhavam a água acumulada pelo chao, tentando nao fazer caso aos olhares alheios e observando as minúsculas salas, ainda mais escuras, que se enfileiravam a esquerda. Em uma delas uma mulher esfregava um garoto de uns quatro anos que protestava agitando os bracinhos. Parecia que o torturavam.
O vapor formado pela água quente que escorria sem parar de uma torneira qualquer enchia o ambiente e camuflava o frio que sorrateiramente invadia o deserto todas as noites. Aquele corredor entao se abria em uma grande sala azulejada coberta por uma constante corrente de água turva. Jorrando de baldes e canecas e se esvaindo com dificuldade por um ralo entupido. Carregando tufos de cabelos, resquícios de pele morta, massas de henna. E, em meio a essa insipidez árabe, duas mulheres se banhavam, sentadas no chao com apenas uma enorme calcinha velha entre seus corpos e a água suja.
Com vergonha de expor minha calcinha – muito mais colorida e muito menor que a delas – e meu corpo – mais miúdo e mais estampado que o delas –, enchi um dos baldes que se empilhavam em um canto e me meti em uma das escuras saletas, decidida a me banhar ali, segregada e em pé, protegida por meu chinelo de dedo. Mas nao tardou um minuto para que eu fosse expulsa de meu esconderijo por uma senhora de um metro e meio.
Ela apareceu vestindo apenas um short delicadamente colorido, com os seios nus enrugados pela idade que lhe quitou alguns dentes e a fala docemente incompreensível, decidida a me lavar. Apontou o canto do vasto salao aguado onde eu deveria me prostrar e sumiu no vapor do corredor. Reapareceu curvada por dois enormes baldes que pendiam de suas maos, despejou toda a água de um no espaço destinado a minha bunda e me indicou que sentasse, antes de sumir de novo para buscar mais água.
Quando voltou, sorriu um sorriso cândido e, sem dizer uma palavra, pegou um pouco do fedido sabao caseiro da marroquina que se banhava em frente e se pôs a me lavar, como se nos conhecessemos há anos, como se aquela fosse a atitude mais natural que poderia ter comigo. Imergi nesse carinho e abstrai meu nojo do chao.
Como uma mae cuidando de sua cria, aquela senhora dos peitos murchos explorou cada cantinho de cada uma das minhas orelhas, me fez deitar no chao imundo para massagear meu corpo cansado e, conforme eu me desenrolava de minha concha para me deixar esfregar, foi descobrindo, espantada, cada uma das minhas tatuagens. Primeiro se assustou ao levantar meus cabelos e deparar-se com os desenhos em minhas costas. Nao pôde conter um quase grito que a fez parar sua funçao por um momento.
Armada com uma luva esfoliante que mais parecia lixa de pé, ela dedicou tempo extra a meus pontos estampados, me fazendo graça. Nao se atreveu, entretanto, a tentar limpar a henna que cobria com motivos árabes minhas duas maos.
Outras mulheres também pararam para me olhar e logo o susto se transformou em risos, comentários e sorrisos. As marroquinas contemplavam meus desenhos tao encantadas quanto eu ficava diante dos rostos tatuados das bereberes que via pelas estradas. Contemplavam minha roupa, meus modos, meus movimentos.
Pela primeira vez no Marrocos me senti, eu, a forasteira, como a verdadeira atraçao turística do lugar.
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