February 18
“Ne quites pas ma sauce!”
Nao havia nenhum cavalheirismo naquela atitude de Bixente. Eu havia pago sua comida e tudo o que eu queria, enquanto o esperava terminar de jantar, era roubar um pouco do pao que lhe deram e mergulhá-lo no aguado caldo amarelo que enchia seu prato. Ele se desesperava: “Pegue o que quiser, menos o molho. Nao acabe com meu molho. Eu preciso dele!”.
Nao é que o líquido tivesse um sabor espetacular. O gosto era o mesmo de um simples caldo de carne. Era mais que isso. Junto com o pao, ele tinha toda uma funçao para meu amigo, que eu, por pura diversao, estava disposta a atrapalhar.
No centro do prato, rodeado por uma porçao cada vez menor daquele disputado caldo, o cérebro de cabra ainda estava intacto, luzindo todas as suas sinuosidades brancas cobertas por um generoso punhado de cominho, que Bixente despejou ali imitando os homens que o rodeavam, com a esperança de que disfarcasse o sabor da exótica iguaria aparentemente adorada pela populaçao local.
Os turistas disputavam espaço nos bancos das tendas de comida que cobriam a Praça Jemaa el-Fna pela noite, mas ao nosso redor todas as caras eram de marroquinos. Apenas eles se aproximavam das barraquinhas que exibiam cabeças de cabras penduradas. Eles e nós, depois que o sangue basco de Bixente se sentiu desafiado a me provar que ele poderia ser parceiro de Indiana Jones. Afinal, eu tinha encarado os escargots, que nao têm o mesmo requinte ostentado nos refinados restaurantes brasileiros e também sao rejeitados pelos turistas em geral. Os locais, entretanto, faziam fila para esperar por esses pratos.
Com um avental já colorido pela comida que preparava, o jovem de bigodes fartos partia um crânio atrás de outro, usando a mesma machadinha e toda sua habilidade para separar qualquer parte comestível que uma cabra pode ter nessa parte do corpo. Os clientes escolhiam entre cérebros, olhos e líinguas expostos, ainda crus, na mesa que servia de vitrine. Havia também umas lascas de carne com muita gordura, extirpadas de todas as reentrâncias daquelas cabeças. Uma enorme panela em constante ebuliçao recebia os órgaos caprinos, que eram cozidos no tal molho que eu e Bixente disputávamos quase a tapas.
Pelo dever humano de conhecer tudo o que a vida me oferece, provei um pequeno pedaço daquele cérebro de cabra. Da receita só consegui distinguir o que meus olhos podiam ver e meu nariz sentir: água, gordura animal e cominho. Nada mal. O mesmo gosto do caldo amarelado, mas aprisionado em uma textura lisa e meio que gelatinosa, para a qual nao consigo encontar comparaçao.
“Realmente, nada mal. Até o terceiro pedaço!”, garantiu meu amigo, esforçando-se para continuar. “Depois essa consistência estranha começa a parecer asquerosa, sobretudo quando você lembra que se trata de um cérebro”. Pobre Indy.
A verdade é que os marroquinos nao encaram dessa forma. Há gente que até compra crânios ainda frescos para cozinhar em casa. Sao apenas mais uma parte do animal, como qualquer outra. E a especialidade nao é restrita às cabras. Nos mercados de rua, pendurados sobre o balcao, por várias vezes me sorriram leitoes, vacas, ovelhas, camelos. Às vezes mostando os dentes, às vezes mordendo a língua. Cabeças, cabeças, cabeças.
Duas horas mais tarde, com uma dose extra de molho servida pelo cozinheiro, Bixente concluiu bravamente sua missao. Na noite seguinte, ele disfrutou de uma eterna viagem de ônibus rumo ao deserto acompanhado por um terrível mal-estar que o fez vomitar por alguns quilômetros. Tivemos sérias desconfianças de que foi reflexo daquele jantar extravagante na praça de Marrakech.