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    March 17

    O mistério da praia de Taghazoute

    Fazia horas já que discutíamos sobre aquela situação um tanto insólita. Não nos negávamos. Ao contrário: adicionávamos fudamentos cada um aos argumentos do outro, levantávamos todas as probabilidades, esgotávamos as possíveis surpresas. Cada vez concordando mais. Ainda assim Bixente estava convicto de que devíamos seguir adiante. “Pela aventura”, ele dizia. Eu, por outro lado, contra minha prórpia natureza, a cada minuto sentia mais medo daquele carro que a qualquer momento encostaria em frente ao hotel e, embora não o dissesse claramente porque a curiosidade me impedia, queria mesmo pegar minha mochila e entrar no primeiro ônibus para fora dali.
    Quando o conhecemos era noite de réveillon e havia um ambiente estranho em Agadir, cidade mais moderna e balneário mais famoso do Marrocos. Havíamos chegado ali uma hora antes de os ponteiros do relógio mudarem o ano e, quando 2005 irrompeu no céu em mirrados fogos de artifício, ainda buscávamos a forma de atravessar a barreira de casas e prédios para pisar a areia da praia.
    Vi-o quando decidimos mudar de plano. Estava em frente a uma discoteca chamada People, ao lado de um desses grandes hotéis à beira-mar. Cabelos rastafari, bem vestido, falava com muita gente, parecia realmente popular. E por um momento parou os olhos negros sobre mim. A oportunidade perfeita.
    Ele sorriu um sorriso de meios dentes que logo se fundiu no espanto de ver minhas mãos levantadas em sua direção, sinalizando para que se aproximasse. Confirmou que era realmente ele o destinatário de meu gesto antes de caminhar os dez passos que nos separavam e parar em frente a mim com cara de interrogação.
    Rachid, ele disse que se chamava. Sim, ele vinha ali com frequência. Sim, a discoteca era mesmo legal. Sim, a música que tocavam era divertida, por que não entrávamos para ver? Ele nos ofereceu bebidas, pois para ele, que havia trabalhado ali como DJ, as bebidas são sempre por conta da casa.
    Éramos os únicos no lugar que tinham sobre a mesa pratinhos com amendoins, batatas fritas e azeitonas. Rachid fez as vezes de um verdadeiro anfitrião. Nos pedia licensa para enroscar-se nos braços de turistas britânicas que se despejavam enlouquecidas sobre ele, para apertar a mão de algum boa pinta, para distribuir beijos e ois para os inumeráveis conhecidos que apareciam. E sempre que voltava a nossa mesa acrescentava algum encanto à tal praia cujo nome eu não podia pronunciar, onde ele dizia ter um apartamento. Realmente, precisávamos conhecer. Que tal amanha à noite?
    No primeiro momento desejei que Bixente aceitara a proposta que eu mesma já havia aceitado. Mas ao avançar da noite, conforme o mesmo convite ia se repetindo em uma insistência estranha, comecei a ponderar sobre a decisão à qual meu amigo, então, já se havia unido. Do final daquela primeira madrugada do ano que começara até a metade daquele primeiro dia minha retiscência foi crescendo lado a lado com o encantamento de Bixente.
    Parecia-nos estranho que um tipo tão querido, tão rodeado de amigos e de conhecidos fizera tanta questão de que justamente nós dois, a quem acabara de conhecer, fóssemos em uma viagem com ele para nos hospedarmos em sua casa. Parecia-nos estranho que um tipo que dizia ter um apartamento à beira-mar e um carro tivesse metade da boca vazia de dentes. Parecia-nos estranho que um tipo que não tinha trabalho dissesse ter um apartamento à beira-mar e um carro. E, acima de tudo, parecia-nos estranho que esse mesmo tipo nos convidasse a conhecer uma praia à noite. Quem, diabos, vai a uma praia que não conhece durante a noite?
    Ele podia ser o chefe de alguma gangue especializada em roubar turistas otários em Agadir. Mas se fosse, seria tão conhecido e tão querido? Havia outros turistas ali para ele roubar. Por que escolheria justamente os dois que passaram uma noite inteira com o mesmo copo de cerveja dizendo que não tinham mais dinheiro? Ele disse que a namorada iria junto e achava que Bixente era meu marido. Estaria querendo uma noitada a quatro, uma troca de casais, algo alternativo? Disso também poderíamos escapar facilmente.
    A insegurança me embrulhava o estômago, me fazia comer meus dedos. Me dava criatividade para, com a ajuda de meu companheiro de viagem, elaborar por Rachid os mais nebulosos planos com turistas irresponsáveis. Mas a curiosidade, ah, maldita curiosidade...
    “Vamos viajar com um desconhecido. Não se preocupe. Mas se eu não voltar a dar notícias dentro de três dias chame a polícia”. A mensagem enviada para o celular de minha amiga Miryam, que estava em Madri, com o número do telefone de “um cara que se diz chamar Rachid e que conhecemos na discoteca People”, era o que eu podia fazer para encarar essa pequena insensatez acreditando que estava sendo cuidadosa. A vida é feita de riscos, nos convencemos, depois de levantar todos os golpes possíveis vindos do tal estranho e de elaborar dezenas de planos de fuga executáveis.
    Eram 20h45, meia hora a mais que o combinado e cinco minutos a menos que meu limite para pegar minhas coisas e sair correndo para a estação de ônibus, quando um par de olhos verdes submersos na mais profunda melancolia sairam de traz do volante do Mégane branco. A certeza de que algo assustador aconteceria naquela noite se afogou naquela visão. Franciska era a recém chegada namorada suíça de Rachid e o plano teria que ser mesmo muito bom, muito profissional, se o sorriso e as feições comedidas que ela trazia fossem apenas uma fachada para um crime cruel.
    Mesmo assim, minha desconfiança só desapareceu por completo quando deitei para dormir na sacada do apartamento de sonhos de Rachid, em uma cama colocada baixo um céu estrelado, embalada por lindas canções do mar.
    Não tivemos respostas para as questões que nos planteamos naquela longa tarde de espera, até porque jamais fizemos perguntas. Mas concluímos que era Franciska quem pagava pelo carro e apartamento alugados para sua semana de férias no ensolarado Marrocos. E que Rachid era apenas o namorado não muito empolgado que não queria passar muito tempo a sós com a amante super apaixonada. E que jamais teríamos conhecido a segregada praia de Taghazoute – muito, mas muito mais interessante que qualquer coisa na super turística Agadir – se não tivéssemos tido a ousadia de abordar Rachid e de aceitar seu convite.
    A vida é feita de riscos e para disfrutá-la é preciso encará-los de alguma forma. E o medo do imprevisto seria sinal de envelhecimento, de amadurecimento ou apenas um reflexo da quantidade de absurdos que vemos acontecer pelo mundo? Seria a perda da inocência? E a vontade de aventurar-se pelo desconhecido mesmo consciente da possibilidade de perigo seria imprudência, infantilidade ou coragem? Preciso de mais alguns anos para concluir.

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