May 04
Efeitos colaterais
O líquido pastoso escorreu vermelho por entre meus dedos quando levei a mão ao rosto para limpar o pó da queda. O sangue, enchendo minha palma, pingando na areia, quente como eu nunca havia sentido até então. Nacho baixou em um segundo da árvore em que tentava subir sem sucesso e correu em minha direção com cara de pavor. Jordi me abraçava pedindo perdão. As gargalhadas irromperam incontrolavelmente do fundo de meu peito. A cena era tão ridícula quanto a queda que acabava de sofrer.
Mal se equilibrando sobre uma pilha de sacos cheios de lixo, Jordi me havia segurado pela cintura e fez menção de me levantar para que eu alcançasse seu casaco, preso no alto de uma árvore. Na mesma fração de segundo em que seus braços me moviam para sobre sua cabeça, suas pernas de bêbado em fim de noite resbalaram nas pútridas sacolas de Caprabo, Dia e Lidl, atirando-nos, os dois, ao chão. O movimento havia sido tão rápido e a uma hora tão avançada da noite que só me dei conta quando estava com a cara colada nos pedregulhos que cobriam o solo.
O autor da peripécia saiu ileso do acidente. Eu, com um rasgo na sobrancelha esquerda e ao lado do olho, que não tardou em se colorir e inchar feito o de um boxeador após combate mal sucedido.
Vi minha própria imagem no espelho de uma vitrine. Eu era uma caricatura da desolação total de um ser humano: a roupa luzindo em branco sujeira, os cabelos revirados e um rastro de sangue seco marcando a face, como o louco da rodoviária marroqui. Ainda assim eu ria. Não podia deixar de rir. Que mais poderia fazer? A culpa era toda minha. Fui eu quem deu a idéia a um bêbado que minutos antes não podia com o próprio peso dentro do Contraclub. Sempre o Contraclub.